domingo, 1 de abril de 2018

DA ÉTICA À ESTÉTICA , por Artur Felisberto.

Obviamente que estamos a fazer uma deriva de conveniência quando definimos o termo grego ethos como sendo a palavra que significa aquilo que pertence ao "bom costume", "costume superior", ou "portador de carácter" porque na verdade significa apenas costume, tradição, hábito devendo por isso ser lido mais no contexto antropológico primitivo do que no actual ou seja relativizado o termo ao nível do que um homem primitivo pensaria de si mesmo a da sua situação no mundo natural no contexto da vida comunitária arcaica. De facto o termo grego ethos está relacionado com o verbo grego éθω • (éthō) significando: “estou acostumado, costumo (fazer) alguma coisa”.

A origem suposta deste verbo seria indo-europeia a partir de *swé com o significado de «o próprio» mas o mais provável é que seja este conceito abstracto em si mesmo a derivar de algo mais concreto relativo ao habitat e local de nascimento, que estaria primitivamente por detrás do conceito grego de ethos.

From Proto-Indo-European *swe-dʰh-, from the reflexive pronoun *swé (“self”) + *dʰeh- (“to put, place, set”), equivalent to οὗ(hoû, “him”) + τίθημι (títhēmi, “to set”): thus the original sense is to "set as one's own". Cognates include Latin suēscō, soleō, Sanskrit स्वधा (svadhā) and Gothic sidus.

Apparenté au latin sodalis («compagnon, ami»), de l’indo-européen commun *su̯ē̆dh- («faire sien») qui donne le sanscrit स्वधा, svádhā, c'est proprement un dérivé du pronom *sue («sien») devenu σφε en grec → voir su-esco de même sens, en latin.

Selon le Dictionnaire étymologique latin, qui renseigne ce mot à l’article edo («manger»), «sodalis», dont l’étymologie n’est pas certaine, contient peut-être le même préfixe sum-, «avec» que sumere, sauf cette différence que la voyelle a été abrégée→ voir jubeo. Il suppose un primitif «*sodum ou *soda».

C'est un dérivé de se suus apparenté au grec ancien ἔθω, ἔθνος («ensemble des familiers, des proches, les siens»).

Sendo assim, o amigo «solidário» latino sodalis é correlativo do verbo latino edo de «comer» e então é possível postular que o ethos grego apelasse para a comunidade de amigos e comensais não sendo no entanto necessário vincular um conceito a outro fazendo derivar primeiro a ética do instinto de sobrevivência individual que nos levaria a comer antes de satisfazer o instinto gregário da sobrevivência da espécie quando, pelo contrário, é a ética que nos leva a confraternizar sobretudo à mesa.

Solidariedade vem do francês solidarité, passando pelo latim solidus, voz técnica da geometria que se referia, como hoje, aos corpos de três dimensões. (…)

Outras palavras de nossa língua, como soldo e soldado, derivaram-se do latim solidus "firme, inteiro, indiviso, inteiro," figurativamente "sólido, confiável, genuíno," do PIE * sol-ido-, forma sufixada de raiz * sol- "inteiro…único”…como o sol!

Se é verdade que «soldado» deriva de «soldo» este não deriva de solidus mas do «saldo» que era pré a pagar em «sal» a um soldado o que demonstra o cuidado que temos que ter para não nos perdermos nas derivas etimológicas. Ora, historicamente o solidus foi uma moeda de ouro romana de 23 quilates introduzida por Diocleciano em 301 d.C. e que seguramente seria o equivalente do soldo que devia ser pago na altura aos militares. Assim sendo ficamos na dúvida se solidariedade vem do «sol» ou do «sal» ou se a certa altura, com a introdução da moeda de ouro de Diocleciano o «soldo» ficou “solarizado” e conotado com o Sol Invictus que a soldadesca romana já adorava, a par de Mitra.

A etimologia clássica, a que se sobrepôs a teoria indo-europeia, parte do falso pressuposto de que todos os termos derivam por composição de raízes de significado genérico que teriam nascido por geração espontânea já prontas a utilizar o que, obviamente, não tem qualquer sentido lógico evolutivo.

Vejamos o caso do verbo latino emere que aparece a propósito da etimologia do altino sodalis por sua vez considerado relacionado com ade ethos. Emō, emere, ēmī, ēmptum tem sempre o significado de comprar, quando na origem havia mais trocas do que compras. No entanto a etimologia indo-europeia pressupõe que deveria significar «tomar» no sentido de quem se apropria de algo que é de outrem.

De l’indo-européen commun *em («prendre») qui donne aussi le vieux slave *imo (→ voir jímat et jmout en tchèque).

Pour comprendre le passage du sens de «prendre» au sens d’«acheter», on peut comparer certaines locutions françaises, telles que: «prendre un journal, prendre un billet de chemin de fer». Le sens «prendre» est resté dans tous les composés, exceptés redimo et coemo, interimo, → voir interficio et intereo, perimo avec per- péjoratif, comme perdo, pereo. sumo renferme un préfixe très rare en latin: sum- («avec») (syn- en grec, sam- en sanscrit) ; il est traité comme verbe simple, et donne à son tour naissance à de nombreux composés. Pareil fait a eu lieu pour pono, prendo, surgo, etc. praemium est la part qu'on prend avant les autres.

Evidentemente que quem compra adquire propriedade e por isso se apropria mas é óbvio que este sentido vem depois porque apropriação sem compra é roubou coisa a que os antigos davam muito valor contrariamente às teorias modernas da apropriação comunitária e comunista. Mesmo nas comunidades em que a vida comum é primitiva e baseada na partilha comum o conceito de roubo é um dos primeiros crimes antiéticos a aparecer sempre que alguém de dentro se apropria de forma particular de um bem comum ou sempre que alguém de fora rouba bens da comunidade. Evidentemente que o que é do domínio comum não é passível de compra ou empréstimo pelo que mesmo em comunidades primitivas a compra aparece sempre que a troca temporária não faz sentido ou seja entre comunidades que não podem ter bens comuns permanentes. Então, ao crime do roubo contrapõe-se o costume da troca sempre que esta era possível e que só passa a compra quando a troca de bens comuns se faz por meios de bens simbólicos ou seja quando aparece o comércio cuja equidade obrigou ao aparecimento de regras éticas e de direito a que presidiam deuses específicos por sinal reguladores tanto do comércio como do tráfego de bens e de pessoas. Os deuses clássicos conhecidos como protectores destas actividades eram Hermes na Grécia e Mercúrio em Roma, deuses por sinal também protectores de ladrões o que nos coloca na pista de que esta actividade teria sido comum nos tempos primitivos antes de progressivamente se ter tornado antiética e passível de punição penal. Por isso é que o «pecado» cristão deriva do crime do roubo de gago, em latim pecum, de que deriva o «pecúlio» monetário. Sendo assim natural seria suspeitar que o verbo latino emere tivesse algo a ver com o deus que presidia a esta actividade e que obviamente era Mercúrio, o deus dos mercadores e mercados sendo então óbvio que emere, além de partilhar a sonoridade dos «mercados» deve partilhar também a etimologia que só pode ser encontrada na primeira sílaba de Mer-cúrio que, como ficamos a saber noutros contextos relativos ao estudo destes deusesse deve relacionar com Melkart que significaria literalmente “senhor da cidade” ou da cidadela protegida militarmente e onde se realizavam os mercados que os antigos assírios chamavam karum. Então, é fácil de dar conta de que emere deriva de uma realidade objectiva fácil de identificar como sendo aquilo que teria o nome virtual de *E-Mel-Kar-tu, e que seria literalmente o templo (E = casa) de Melcarte sobre cuja protecção se realizavam os mercados. Obviamente que esta deriva lateral a propósito de emere é circunstancial mas uma coisa podemos concluir: sem explicação plausível, o étimo e- seria de origem suméria e virtualmente egeia, ou mais arcaica ainda, e deve sempre ser tido em conta como sendo significante em si mesmo possivelmente com a conotação de templo, abrigo, lar ou casa de habitação onde se adquirem os hábitos e bons costumes.


*Ish-ka, lit. da vida > *swa > *σϝε > θω + E (casa) => ἔ-θω < e-thos < E-Thi(os).

A etimologia mítica pode sempre ter várias entradas e nada obsta a que no plano da génese do significado da ética tenham convergido duas ideias sobrepostas, uma relativa à “casa da vida” como espaço natalício e outra, mais universal ainda, relativa à «casa grande» do deus tribal.

É certo que a casa da Grécia antiga era oîkos (casa, lar, habitação) < ϝοῖκος = woîkos < Proto-Indo-Europ. *weyḱ-. ó Latin. vīcus > Sansk. Viś / veśa > Gotic.weihs.

Obviamente que nem é preciso parar muito tempo a pensar que o termo luso «fogo» na conotação demográfica deriva de ϝοῖκος = woîkos e muito nos admiraria se nada tivesse a ver com o fogo das lareiras pois ϝοῖκος < pha-u-i(s)co e literalmente o *iko (< eiku < e-ku) o «nicho» ou «ninho» onde nasce a «faísca» do «fogacho» ou seja, a pássaro Benu da luz da madeira (u)!

É frequente no estudo da etimologia miticamente comparada encontrar voltas e reviravoltas de termos como se a evolução das línguas no tempo fosse uma espécie de contradança informativa.

Então, repare-se na forma como os árabes, que têm uma língua de herança caldeia, dão nome ao ninho: عش = eash? Estranho, não é? É que, e-ash é literalmente a casa (E) do filhote (ash) e é quase o mesmo que *iko e pouco menos que o grego oikos.

Por isso é que, quando damos conta de que os postulados da etimologia indo-europeia fazem tudo para passar ao lado das línguas semitas, começamos a suspeitar que estes postulados só podem ser falsos; primeiro porque pretendem criam uma língua adulta e crescida a partir do nada no meio das estepes caucasianas depois porque esquecem o percurso evolutivo das línguas semitas mais antigas e das quais seria de suspeitar que ou descendem ou delas receberam influência. É suspeita a forma racionalista como se pensa em raízes semânticas indo-europeias aparecidas por geração espontânea de forma perfeitamente acabada quando o normal seria pensar que o pensamento humano começou de forma infantil, cheio de pensamento mágico, ignorante e aterrado pelos instintos primários da espécie.

Nest < proto-germânico *nestaz < proto-indo-europeu *nisdós (“ninho”), literalmente “onde se senta [o pássaro]”, um composto de *ni (“baixo”) (daí também Inglês nether) + o grau zero da raiz *sed- ("sentar") (onde também se sentam os ingleses).

E evidente que pensar uma raiz indo-europeia para a etimologia do ninho como sendo *nisdós com o significado virtual de “um assento baixo” é um racionalismo ridículo até porque noutro ponto destes trabalhos demos conta de que o trono e o «assento» de cátedra e cadeira foram coisas miticamente muito sérias na história do pensamento mítico e que fizerem com que a deusa Iside fosse a deusa da caderia à cabeça e possível responsável pela etimologia de sede e «assento» de cadeira pelo que a raiz sed- não é de origem indo-europeia mas egípcia, e nestas como em todas as coisas a etimologia é também dar o seu a seu dono!

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Duvida-se é que na etimologia do «ninho» de pássaros esteja incluído o trono de Iside. Se suspeitarmos que na génese da etimologia do ninho estará o berço que seria do domínio da deusa do parto sumério que era Nintu, a Senhora da Natividade, também conhecida como Nix ou Nut, talvez a etimologia do ninho se torne mais fácil e intuitiva!


«Nicho» < franc. niche< ??? > lat. nīdus < *nisdós ou antes

                                      < Nix< Nu-ish < Anu + e-ish ó Nut < Nin-tu > Ninito

> ninio >«ninho».                                                        > Ne-ush > grec. Νεοσ.

E foi do «ninho» onde a Deusa Mãe Nintu pôs o ovo primordial é que nasceu o Ano Novo e toda a novidade e não o contrario!

Quanto ao latino edo da «comida», pode ter acontecido o contrário e ter sido este que, enquanto satisfação dos instintos de sobrevivência individual, derivou do ethos egeu pela via dos instintos gregários que se satisfaziam na comunhão de refeições comunitárias. Na verdade, os romanos tinham a deusas Edesia relacionada com a alimentação e Educa com a educação alimentar das crianças de tenra idade, porque “quem dá o pão dá a educação”! No entanto, é bem possível que, agora sim, estejamos perante divindades tardias alegóricas, derivadas do nome de Atena e que, por isso mesmo, pouco acrescentariam à etimologia da ética. De facto, Edna é um nome próprio judeu supostamente derivado do sumério Edin que deu nome ao Éden Bíblico termo que antes de ter acabado a significar estepe terá significado *E-din(gir) ou seja a casa dos deuses que viria a ser o paraíso. Notar que em sumério dingir ó diñir < di + ñar = juiz + dos que acumulam e depositam (cereais e alimentos).

Sumerian ñar; ñá: storeroom; to store, accumulate; to deliver, deposit; to place, set down upon; to make, restore, establish.

No entanto, se o nome Edna é comum em várias línguas nórdicas não será tanto pela sua suposta origem judia mas talvez pela sua relação com o nome pessoal feminino irlandês Eithne e que significa literalmente semente ou grão o que nos recoloca na linha etimológica das deusas latinas do alimento.

Como este nome teve várias grafias e formas anteriores que incluem Ethnea, Ethlend, Etnen, Ethlenn, Etnenn, Eithene, Etne, Aithne, Enya, Enna, Etna, Eith-nenn, Eith-lenn, Eithna, Ethni, Ed-lend, Ed-lenn é assim possível suspeitar da existência, possivelmente entre os celtas, de uma divindade arcaica com este nome que não andaria longe do das deusas latinas alegóricas antes referidas nem do nome da deusa do monte Etna que sendo Aitna derivará do nome de Atena. Agora entendemos porque é que Ari-Adne casou com Dionísio que seria uma arcaica variante de Atena.

No entanto, se assim for, também se pode suspeitar que a etimologia do nome da grande deusa Atena deve ser revista podendo ter sido *Etana em Creta precisamente com o significado de “casa (E) das Cobras (tan)”, em referência à sua égide ou à sua relação telúrica com o vulcão da ilha de Tera, tanto mais que se pode postular, sem muito receio de errar, que a filha de Urano e de Geia que decidiu a disputa das terras de Cible na ilha da Sicília entre Hefesto e Deméter era ela, a deusa que em Atenas era Core, a filha de Deméter e possível esposa de Hefesto.

Aitna (Etna) é uma montanha em Sikelia (Sicília), em homenagem a Aitna, filha de Ouranos (Céu) e Ge (Terra), de acordo com Alkimos (Alcimus) em seu trabalho em Sikelia (Sicília). Simonides diz que Aitna decidiu entre Hefesto e Deméter quando brigaram pela posse desta terra. Simonides, Fragmento 52 (de Scholiast em Teócrito 1.65).


Edna < Irl. Eithne <Aitna < *Atina > Atena < *E-tan > Atinet

                                                 Aitnê < Atinet < *E-tan + at > (E)Tanit < Ti-Anat

> Tianita de Loulé.

De acordo com múltiplas fontes, Etna (latim Aetna) poderia derivar do grego aitne, aithō (αἴθω) que significa "eu queimo", ou de atuna, termo fenícia que significa “fornalha”.

Αἴθω, do proto-indo-europeu * heydʰ- ("queimar; fogo"). Cognato com o latim aestus, aestās e aedis, e sânscrito धे्द्धे (inddhé, “ascender, incendiar”).

Derivar aitne de um possível fenícioatuna faria sentido e iria ao encontro da etimologia acima proposta se postulássemos primeiro que o termo derivaria dos cultos infernais de Tanit, a variante cartaginesa da suméria Tiamat. E obviamente nem vale a pena continuar a insistir no contra-senso de protocolo que é fazer derivar o nome dos deuses de banalidade da vida real. De facto, só mesmo por distracção é que não se derivam várias das inflexões do verbo clássico grego aithō do nome dos infernos dosgregos, o Hades já que aitne só muito remotamente se relaciona foneticamente com as várias inflexões de aithō o que reforça a pouca credibilidade que há em fazer derivar o nome divino do monte Etna dum verbo comum do grego clássico aparentado.

Na verdade, nem por mero acaso, o equivalente masculino do nome pessoal feminino irlandês Eithne é Aodhán com o significado de fogo ou o que transporta o fogo dos infernos porque parece derivar do nome do deus dos infernos da mitologia irlandesa, Aed, ou Aodh, nome que só não ressoa ao Hades grego e ao Adad caldeu a quem for surdo! Claro que nesta linha etimológica se teria que concluir que Atena / Anat foram deusas infernais, o que já se suspeitava, mas sobretudo que Hades seria então um nome egeu mais arcaico que Adad e que neste caso seria corruptela de deus grego dos internos *Ka-Dis, literalmente deus da vida. Como o Hades é mais o nome do inferno que do seu deus é ainda mais plausível que este fosse o *E-Hadis / *E-Ka-Ti-ish / Hecate.


Aodh < Aed < Eads< Hades < *E-Hadis < *E-Ka-Ti-ish > Hecate.

Claro que não é imediata a relação do Hades com o verbo latino para comida mas se repararmos que o deus do Hades era também chamado Pluto por ser um deus da riqueza das minas junto a montes telúricos, como o Etna onde Hefesto tinha a forja, e se recordarmos que as terras de cinzas vulcânicas recentes são sempre altamente férteis teremos aqui motivo para relacionar o Etna com Ceres / Deméter, razão que agora explica o mito que faz da titânide Etna aquela que “decidiu entre Hefesto e Deméter quando brigaram pela posse desta terra”.

Os edis (do latim aedīlis curules), da plebe na Roma Antiga eram eleitos pelos Conselhos da Plebe, em número de dois (que aumentou depois) e executavam as ordens dos tribunos, guardavam o templo de Ceres (onde se achavam os arquivos da plebe) e protegiam os plebeus contra os patrícios.

Dada a função de guardas do templo de Ceres dos edis é facilmente aceitável que o seu nome estivesse relacionado com a função de defenderem os celeiros e garantirem o abastecimento dos mercados que primitivamente teriam permitido a realização de refeições comunitárias.

«Edis» < ediis < aedīlis < ad-edi-lu, liter.“o homem (lu) que está junto dos comestíveis (edi)” ou seja, o guarda do celeiro. O e-dil guardava o celeiro tal como o pastor guardava o re-dil.

Na Grécia temos ainda o termo aedo com outro conceito foneticamente próximo destes e que analisamos de seguida.

Um aedo (em grego clássico ἀοιδός / aoidos, do verbo ᾄδω / aidô, "cantar") era, na Grécia Antiga, um artista que cantava as epopeias acompanhando-se de um instrumento de música, o forminx.

Se aparentemente um bardo teria pouco a ver com um membro da polícia municipal, defensor dos celeiros e mercados públicos, a verdade é que este serviço acabaria por ser a maior parte do tempo enfadonho e propício à prática das artes do canto e do encanto que seriam sobretudo apreciadas durante os banquetes comunitários como era o caso dos bardos celtas.

De facto, ἅδος, ἄω foi antes demais sinónimo de “satisfação, saciedade, decreto judicial favorável” relacionado com ἁνδάνω (< ϝαν-δάνω) / ἁδῶ, “ser aceitável, favorável” e só depois passou a ἀεί-δω (ἀϝεί-δω) / ᾁδω com o significado genérico de cantar…porque seria esta uma das funções dos guardas dos celeiros dos templos e das cidades. A reminiscência do papel de guardião aparece no significado de decreto favorável de ἅδος, ἄω. Por outro lado, parece comprovar-se que as conotações finais de nomes e palavras resultavam da confluência de várias realidades que se iriam misturando no perfil temporal evolutivo das palavras. Neste caso temos ἀϝεί-δω < ἀ *ϝan-δω < ϝαν-δάνω, onde se vislumbra a flauta de Pan e de Fauno pelo meio e a quase certeza de que o fauno latino correspondia ao nome mais original deste deus do amor e da alegria rústica.


Grec. Pan < Phan< Pha-Anu > Grec. Fanes > Lat. Fauno.

E então, se é verdade que entre a flauta e a cítara só esta permite acompanhar o canto do bardo, também é um facto que primitivamente não haveria canto e os aedos usariam apenas o som da flauta para se distraírem enquanto guardavam os celeiros, como quem guarda rebanhos, e alegravam os amigos e vizinhos nos Komos comunitários. Ora, se o faraó era o guardião da «casa grande» do Egipto o edil latino teria tido o mesmo papel enquanto guarda do E-thos grego que afinal ainda não sabemos bem o que seria em concreto mas que tudo aponta para que fosse exactamente ou a “casa grande” do povo ou o seu celeiro adjacente ou seja, quase seguramente o templo do deus da comunidade.

De facto, além de pressupormos que o ethos grego é cognato do latino edo deveríamos pensar na etimologia de «edificar».

«Edificar» aedi-ficāre“; compuesto de “aedes”, edificio, y del sufijo “ficar” del latín “ficāre” de la raíz de “facĕre” que significa hacer.




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Figura 1: Reconstrução da cidade ibérica de Edeta, tipicamente anatólica.
Figura 2: Guerreiro edetano tipicamente egeu.

Claro que dizer que edificar vem de edifício é uma espécie de petição de princípio porque o latino aedes antes de ser um «edifício» seria um *a(d)-edes, ou seja algo junta à ao edes que para os latinos seria o celeiro e para os gregos seria o templo da comunidade ou seja, a «casa grande» comunitária.

Los sedetanos o sedesquios “habitantes de Sedeis” (gen. Setes-kien) en lengua indígena, fueron un pueblo íbero del siglo III a. C. situado en el valle medio del Ebro, en España.

Edetanos es el gentilicio de las personas que vivieron en el territorio de Edeta. Y se conoce así tanto a los íberos edetanos como a los romanos de la ciudad de Leiria (actual Liria).

Então, se não parece oferecer muitas dúvidas de que os Setesquinos eram guerreiros do deus Sete, já os Edetanos ou *edes-kinos poderiam ser um nome equivalente deste por queda do “esse” inicial ou então um topónimo que confirmaria a possibilidade de ethos ter sido um termo genérico, como oikos, para designar localidades como a ibérica Edeta que progressivamente deu nome à federação tribal dos edes-quinos que os romanos chamaram por edetanos mais não seriam do que emigrados egeus aguerridos durante a época dos povos do mar e seguintes e que deram o nome a Edeta precisamente no contexto de grande anexo da casa dos deuses onde se guardava o celeiro e o tesouro da cidade ciosamente guardado pelos guerreiros edetanos representados na figura seguinte em termos formais idênticos aos das pinturas de vasos gregos primitivos

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Figura 3: vasos dos guerreiros edetanos de estilo tipicamente egeu primitivo.

Em conclusão e a propósito do nome de do deus Sete presente no nome dos setesquinos próximo do edesquinos podemos postular que o nome de *Se-tis se reportaria à «sé» ou sede dos deuses e *E-des à casa dos deuses o que nos levaria a recordar novamente o nome de deusas como Sedna e Edna.

Sedna é uma das principais deusas inuit, é conhecida como a Mãe dos Animais Marinhos. Várias são as lendas sobre a origem de Sedna e todas têm em comum o fato dela ser uma bela jovem humana vivendo com seu pai.

A importância isolada da raiz Sed- a preceder o nome de divindades levar-nos-ia ao nome da deusa do rio Sena, Sequana que os latino transliteraram do termo Se-koa-ana de Ptolomeu seguramente pensando no termo latino aqua para água e ambos a partir dum nome pré celta que estaria presente em outros rios como é caso do afluente do Douro onde ficam as arcaicas gravuras do Vale do Côa, relacionado como o verbo luso «coar» o leite ou outro líquido que se faz «escoar» por um pano para que fique limpo e a deusa Soucona.

Souconna é uma deusa céltica, a deidade do rio Saône em Chalon-sur-Saône, a quem a invocação epigráfica foi feita.


Souconna < Sauc-Onna< Sakuona ó Sequana < *Se-kina => Seteskinos.

Mas a Deusa celta Satiada tem de forma mais explícita o nome do deus Sete.

Satiada era uma deusa céltica cultuada na Britânia romana. É conhecida por uma única pedra de altar sem adorno dedicada a ela em Chesterholm (Vindolanda).[1] A inscrição diz:

DEAE / SAIIADAE / CVRIA TEX / TOVERDORVM / V·S·L·M

"À deusa Satiada, o conselho de Textoverdi de bom grado e merecidamente cumpriu seus votos."

O nome na pedra pode alternativamente ser lido como Sattada (a forma usada por Jufer e Luginbühl), Saitada ou Saiiada.

Ora bem, até à muito pouco tempo qualquer aldeia rural era definida não de forma banal como o local dos próprios vizinhos mas de acordo com o patrono, orago ou padroeiro que era o santo ou anjo a quem é dedicada uma localidade, associação ou templo (capela, igreja etc.).

A própria palavra aldeia é de etimologia duvidosa porque este termo sendo suposto de origem etíope e com o significado de pastagem por intermediação árabe na verdade só existe na Península Ibérica onde é tão comum na Andaluzia quando sobretudo nos dialectos nortenhos galegos, aragoneses e das Astúrias.

«Aldeia» < Al-dea < arábico Al + dayea < aḍ-ḍayʿa (= “fazenda, propriedade rústica”) < por empréstimo do Ge'ez (Etíope) ፂዖት (= ṣ́iʿot) “campo, pastagem” termo muito mais próximo do «chiote» luso, veste de burel, áspera e fria...própria de gente rústica. Não se entende muito bem como o fonema arábico aḍ-ḍayʿa seja reconhecível no rude e áspero ṣ́iʿot etíope mas se os gramáticos os dizem…fica por esclarecer como foram os árabes buscar este termo, relativo a propriedades rústicas que nunca dominaram, porque pertenciam a um país cristão que lhe resistiu até hoje. O mais provável é que o chiote etíope nunca tenha tido nada a ver com a aldeia que os árabes terão encontrado já perfeitamente estabelecida na península ibérica como propriedade rústica possivelmente apenas nas terras do sul de origem ibérica ou berbere e que depois propagaram por toda a península com tal sucesso que foi sobretudo a norte que este termo vingou e prosperou porque os árabes a conotaram com coisa que existia no seu léxico como al-day-iyla com o significado de coisa pouca e pobre como sempre foi toda a riqueza do rústico.

A verdade é que o termo árabe que hoje traduz a palavra ibérica aldeia é al-qaryat quase seguramente presente no nome de muitas Alcarias, Alqueidões, Algares e Algueirões das terras lusas do sul.

Assim é quase seguro que estamos perante uma etimologia que não sendo popular é erudita e de origem arabizante. Por alguma razão é que dizem os Galegos:

Por mal que che va, vive na cidá.

A aldea Dio-la dea».

No entanto, é bem possível que a «aldeia» que os galegos preferem ao deus dará, a deusa a deu pois este termo seria mesmo popular e comum a toda a península ibérica, ou pelo menos ao sul da península e por isso pré árabe significado, nem mais nem menos que ido a *A(l)-Deia ou deusa enquanto povoado onde era adorada uma deidade particular tal como ainda hoje tem a sua padroeira e o seu orago.

Claro que se suspeita que tanto os locais como os invasores árabes manipularam o nome da aldeia de acordo com o que lhe foi parecendo até que a institucionalizarem localmente. De facto, suspeita-se que a aldeia ibérica tenha afinal a mesma origem da equivalente árabe moderna al-qaryat, termo que já se encontrou enrolado como o nome da suposta aldeia judaica de Judas Iscariote, porque há quem considere que este sobrenome derivaria do nome da aldeia judaica de Qaryat...como se entre semitas tudo fosse parecido como os macacos e os asnos.


Al-qaryat< Qaryat < Kar-yató Kartea >Caldeia > Hal-Deia > «Aldeia».

                                                                  > Cartago > Cartagena> Cartaxo.

De passagem se notará que o nome da aldeia passou pelo conceito dos couros e kauroi que guardavam os «castros» e cidadelas que eram na fenícia os kartu de Melkart e pela grande cidade de Cartago pelo que da aldeia à cidade foi sempre apenas mais um passo de progresso ou decadência, passos estes acentuados pelo tempo e pela geografia.

Sendo assim, ficamos na incerteza se ethos significaria apenas a «casa grande» comum aos «seus» vizinhos ou se seria antes a casa do deus adorado em comum como patrono de todos os «seus» vizinhos e comensais como seria o caso de oicos e de «aldeia» enquanto variantes entre muitas mais que se poderão descobrir noutras línguas, do mesmo mitema. Assim, em vez de raízes semânticas duma língua primitiva devemos procurar mitemas e as suas variantes de acordo com as virtualidades de cada língua actual.



ESTÉTICA

Estética deriva «do francês esthétique», que, por sua vez, vem «do grego aisthêtiké, forma do adjectivo aisthêtikós», que significa «que tem a faculdade de sentir ou de compreender; que pode ser compreendido pelos sentidos».

Greek aisthetikos "of or for perception by the senses, perceptive," of things, "perceptible," from aisthanesthai "to perceive (by the senses or by the mind), to feel," from PIE *awis-dh-yo-, from root *au- "to perceive."

«Estética» hewisd- < *hew- (“ver, perceber” ) > ἀΐω (aḯō). Cognatos incluem sânsc. आविस् (āvís, “aberto, manifestamente, evidentemente”), latim audiō (“eu ouço”) e Hitita, u-uḫ-ḫi (“vejo”).

Quando um português rústico mal falante diz que tem «visto e *ouvisto» começa a gaguejar e a dizer *ouvo por «ouço» o que, além de falta de cultura gramatical, significa que estes dois sentidos se confundiriam facilmente no valor perceptivo da realidade dos falantes primitivos que facilmente confundiriam as brisas com sopros de espíritos e auras sobrenaturais. Por isso, não repugna muito fazer derivar a estética mais da percepção auditiva do que da visual ainda que tenha sido na visão que ela se tenha fixado em definitivo. No entanto não é convincente que o grego aísthēsis tenha muito a ver com o proto-indo-europeu *hewisd-.

Lat. Auris < proto-indo-europeu *hṓws. ó Inglês Antigo ēare (inglês ear), grego antigo οὖς (oûs) ó antigo eslavo eclesiástico, uxo ó (??? Chamorro, uho) ó irlandês antigo au.

Lati. Aura < Greg. αὔρα (aúra, “brisa, vento suave”) < Proto-helênico *auhrà < proto-indo-europeu *héwsr̥h (“ar da manhã”) < *hews- (“amanhecer; leste”) > ᾱ̓ήρ (āḗr).

Na verdade, se era a Aurora latina que trazia consigo os primeiros raios de luz na forma da «aura» invisível dos corpos que Eos, a equivalente  grega, trazia consigo e com o vento Zéfiro a brisa da manhã a que chamavam aura. Na verdade, nos tempos da mitologia de transmissão oral o ouvido era mais importante que a visão mas muita informação se perdia pelo caminho ao ponto de a primitiva mitologia da Deusa Mãe anatólica Aruru, de que os romanos receberam o nome da Aurora acabar entre os gregos como nome das auras. O resto do esforço de pesquisa a respeito das línguas proto indo-europeias é pura treta. De facto incluir nestas pesquisas a língua chamorro de base austronésia e malaio-polinésia, com influência espanhola falada na ilha de Guam e nas ilhas Marianas do Norte, na Oceânia e rematado disparate que denota o desnorte dos investigadores. Evidentemente que a etimologia do nome da deusa grega da aurora não é fácil de descobrir mas não ver no suposto *hews- (“amanhecer; leste”) o nome de Eos e precisar de uma contracção a martelos de prensa para ir da raiz da aura *héwsr̥hao ar grego ᾱ̓ήρ são saltos de trampolim demasiado perigosos para serem dados pelo comum dos mortais.

De facto, o grego clássico era um produto acabado resultante de uma longa evolução linguística que teve a última manifestação escrita no micénico anterior à idade das trevas gregas sabendo-se pouco do que aconteceu entre ambas e praticamente nada, dos falares minóicos que seriam muitos e variados espalhados por todas as ilhas do mar Egeu.

Ora, se ais-than-esthai significa “sentir” tal como se encontra no seu contrário que é a “anestesia” e que deu aisthêsis como sendo “sensibilidade ou sensação” é fácil de verificar que pelo caminho se perdeu -than- por contracção. Ora, tal deve ser uma parte importante da etimologia dum termo que na origem seria virtualmente *ais-than-esthêsis. De facto, quem nos pode garantir que a primeira sílaba deste termo, longamente aglutinante na sua origem, não fosse um mero onomatopaico relacionado com a sensação primária da dor na forma dum grito universal, Ai! 

Ishtanu (Hittite sun god) < Ish-Tan, lit. "a cobra de fogo" ou “filho da cobra lunar” < *Kaki-Kian.
 Então, o termo virtual *ais-than-esthêsis deveria ser Ai-sthan-esthêsis, onde, para «estesia», se deveria procurar à parte uma etimologia própria e para –sthan- já temos o astro e deus de toda a luz que era Ishtanu, o deus esposo de Arina (Hattic Eshtan, lit. “a casa de Ishtanu), a deusa do sol do país e dos povos dos Hatis e possivelmente uma contração do nome de Aruru-Ana.



Ver: OSÍRIS, O OLHO DE DEUS NO FUNDO DAS TREVAS (***)